Após viver um relacionamento conturbado e abusivo durante oito anos, Daniela, 38, sente-se totalmente satisfeita com sua relação não monogâmica. Ela e o atual parceiro estão juntos há dez anos e, há quatro, descobriram essa outra forma de se relacionar.
“Eu me sinto completamente realizada sexualmente e, mais do que isso, na vida, porque hoje conto com o amor e o companheirismo do meu marido de tantos anos, e tenho outros amores.”
Estudos apontam relações amorosas contribuem para a qualidade de vida, e é senso comum acreditar que parceiros monogâmicos —que mantêm um relacionamento emocional e sexual exclusivo— são mais felizes. No entanto, desafiando essa crença, um estudo recente publicado no Journal of Sex Research apontou que a não monogamia —termo abrangente para práticas que envolvem múltiplos parceiros com consentimento— pode ser tão satisfatória, em termos de relacionamento e de vida sexual, quanto a monogamia.
O estudo analisou dados de 35 pesquisas anteriores, envolvendo 24.489 pessoas nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Portugal e outros países, configurando-se, assim, como uma meta-análise. Os resultados indicaram que não há diferenças significativas nos níveis de satisfação entre indivíduos monogâmicos e não monogâmicos.
Segundo o autor principal do estudo, Joel Anderson, pesquisador do Australian Research Centre in Sexuality, Health, and Society, na La Trobe University, relacionamentos monogâmicos são frequentemente assumidos como oferecendo maior satisfação, intimidade, comprometimento, paixão e confiança do que relacionamentos não monogâmicos. Essa crença é chamada de “mito da superioridade da monogamia” e é frequentemente reforçada.
Daniela afirma que, em seu relacionamento fechado de anos, havia protocolos a seguir, como namorar, noivar, casar e ter filhos. “Era uma relação completamente fechada, que terminou com uma traição muito grande, na qual eu apanhei muito”, conta.
Agora, ela e o novo companheiro exploram novas possibilidades. Há três anos, passou a frequentar festas e clubes liberais e criou o pseudônimo Ravena, identidade com a qual se sente mais autêntica, além de produzir eventos voltado aos não monogâmicos.
“Essa forma de viver foi tão importante e significativa para mim que eu comecei a buscar outras pessoas que se sentiam da mesma forma, mas que não conseguiam se abrir, tinham vergonha de serem quem realmente são”.
Por outro lado, conta que já sofreu preconceitos e até perdeu amizades. “Uma delas chegou a dizer que meus filhos teriam vergonha de mim.”
Para Filipe Starling, psicólogo, sexólogo e terapeuta de casais, essa percepção de superioridade surge acompanhada da desqualificação da não-monogamia. “As pessoas tendem a falar mal da não monogamia para fortalecer a decisão monogâmica delas”, diz.
Esse preconceito se manifesta em comentários que afirmam que relacionamentos não monogâmicos não são sérios, que não há amor envolvido, que as pessoas são confusas, que esse modelo não seria adequado para criar filhos ou até mesmo na patologização dessas relações, classificando-as como anormais, afirma ele.
O estudo também analisou diferentes formas de relacionamentos não monogâmicos, incluindo poliamor (quando a pessoa mantém múltiplos relacionamentos amorosos), relacionamentos abertos (acordo para sexo fora da relação), swing (troca de parceiros) e os chamados relacionamentos monogamísticos (geralmente monogâmicos, mas com acordos sexuais específicos envolvendo todos os parceiros).
Os resultados indicaram que indivíduos que praticam swing e poliamor relataram maior satisfação sexual do que os monogâmicos. Já aqueles que seguem o modelo monogamístico registraram maior satisfação no relacionamento como um todo.
Samantha, 41, conhecida na internet como Camila Voluptas, redescobriu sua sexualidade e desejos ao ingressar no universo liberal junto com o marido. Após um casamento conturbado, do qual saiu traumatizada, contou com o apoio do atual parceiro para superar essas experiências. Hoje, o casal se relaciona com outras pessoas, sempre juntos.
“Sou muito feliz hoje como mulher. Me sinto respeitada, valorizada”, diz. “Vivemos um relacionamento muito transparente, feliz e seguro”.
O estudo aponta para a existência de uma “mono-normatividade”, ou seja, a prática de manter um único relacionamento emocional e sexual como norma predominante na história do Ocidente. Além disso, menciona que a maioria das pessoas dessa região ainda deseja esse tipo de relação. Essa tendência pode ser explicada pela percepção de que relacionamentos monogâmicos oferecem melhores resultados em termos de bem-estar e um ambiente mais seguro para a criação de filhos.
Um dos objetivos da pesquisa é desafiar essas suposições e reduzir o estigma e a discriminação contra aqueles que fazem outras escolhas. “Não se trata de uma forma de se relacionar ser melhor que a outra. O importante é ter opções e poder escolher aquela com a qual você mais se identifica”, afirma Starling.