No livro “O Diário de Bridget Jones” a protagonista fala sobre contagem de calorias e medidas nocivas para perda de peso, algo retratado de forma mais amena no filme. Na pele de Renée Zellweger, Bridget repete receitas esperadas do cinema: a busca pela magreza associada ao sucesso no amor e no trabalho.
“Nos vendem a ideia de que bem-estar e adequação social estão ligados à magreza. Se você emagrecer vai ser feliz”, explica Mica Ayer, estudante de cinema e criadora de conteúdo.
Essa percepção não é nova, diz Vanessa Rozan, comunicadora de beleza. “O audiovisual sempre deu essa diretriz: para ser a personagem principal de nossas vidas temos que conquistar esse padrão”, diz.
Paula Jacob, crítica e pesquisadora de cinema especializada em semiótica, diz que a indústria de Hollywood e outras mídias formam um ecossistema que se alimenta da imagem.
O filme “O Diabo Veste Prada” (2006) é um retrato disso. O arco de Andy (Anne Hathaway) é seu emagrecimento e adequação à moda, ofuscando sua competência profissional. Cenas que enfatizam a diminuição de tamanho de suas roupas, bem como dietas restritivas feitas por outra personagem tecem a trama. Mica cita a cena em que Emily (Emily Blunt) diz não comer nada além de um pedaço de queijo quando está prestes a desmaiar para exemplificar a vilanização da comida nos filmes.
Os elencos, compostos por mulheres dentro dos padrões que seguem insatisfeitas com suas aparências, diz nas entrelinhas: se você não aprimorar sua imagem, pode ser considerada coadjuvante. “Não escapamos nunca”, diz Paula.
“O cinema dita comportamentos e valores. Grande parte da audiência desses filmes é composta por adolescentes construindo suas identidades”, complementa Mica.
De acordo com o psiquiatra Fábio Salzano, vice-coordenador do Ambulim, o consumo deste tipo de mídia não é o único responsável por desencadear um transtorno alimentar, mas pode gerar gatilhos para pessoas com histórico familiar de transtornos psiquiátricos. “Teríamos menos casos se houvesse referências de corpos diversos na mídia”, diz.
Para Rozan, o debate sobre a emancipação do corpo feminino vive ondas de avanços e recuos refletidas pelo audiovisual. Enquanto os anos 1960 e 1970 foram marcados por avanços, as próximas décadas reforçaram a conexão entre magreza e sucesso, projetadas por programa de ginástica de Jane Fonda, calças de cinturas baixas e a moda heroin chic.
“Com a chegada do YouTube e blogs pessoais vimos a descentralização da mídia: pessoas à margem tinham voz e podiam se identificar”. Mas a ascensão do Instagram, em 2010, trouxe influencers de magreza que embalam seu conteúdo como bem-estar. Para ela, isso se fortaleceu com a pandemia.
Após um momento de clamor à diversidade, com o movimento body positive e cobranças para que as marcas fossem diversas, milhões de pessoas ficaram em casa e as atividades reduzidas às telas. Além da camuflagem de produtos como bem-estar intensificada pelas marcas, encarar a própria imagem no celular foi um fator de estresse para muitas pessoas. Houve uma ruptura com esse padrão mais positivo que se via e, silenciosamente, desaparece.
“Agora no audiovisual já não se fala sobre o corpo porque é politicamente incorreto, mas seguem escalando protagonistas magras. E a amiga gorda sempre é ‘só’ a amiga gorda”, diz Mica.
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